É já noite há muito tempo. A vila está silenciosa.
Os últimos dias, talvez por se aproximar lentamente a viagem de regresso, têm sido mais reflexivos que o habitual, e noto em mim um humor menos brincalhão que no resto do tempo. Dou por mim a organizar papéis, a colocar as fotografias nas pastas respectivas no computador e a inesperadamente tentar lembrar-me onde tinha guardado a mochila.
A última semana, com agitação no Maputo e jornais cheios de artigos de opinião sobre a decadente economia, tem-me levado a pensar como o mundo é desigual. Um lugar-comum, aceito, mas há alturas em que, para além de o entendermos, podemos vivê-lo concretamente, e concluir que é uma verdade. As experiências contrastantes colocam-nos sempre questões, e é um tempo fértil que nos pode ajudar a tomar decisões e a ganhar consciência de que há opções que deixam marcas, das quais nos damos conta inesperadamente.
Na nossa boa vontade há sempre um dia em que nos sentimos capazes de mudar o mundo, de sermos radicais e mudar tudo, ir ao extremo e alterar toda a nossa vida. E, por mais que não queiramos, sempre caímos naquilo que inconscientemente nos têm metido na cabeça: deixar de fazer, ver, ter qualquer coisa. É sempre um desafio arriscado, que, com honestidade, acaba por ter sempre uma bonita música de fundo e grandes planos cinematográficos. Sim, que isto de mudar o mundo tem de ser ao estilo de grande ecrã, cabelo ao vento e muita natureza por desbravar! O melhor é assumir que todos algum dia passámos por isso e pronto, não vale a pena reprimir e acabar a mudar o mundo desde o divã do psicólogo…
A vida traz-nos infinitas hipóteses de alterar os acontecimentos, de ter voz activa e podermos escolher de que lado do mundo queremos estar, só que normalmente sem esse tom épico que esperamos, e muito menos banda sonora. Creio que a maior dificuldade está em arriscar a ligarmo-nos ao que vivemos, e em percebermos que com pequenos gestos, mesmo parecendo que não mudam a vida dos outros, podemos não fazer mas ser a diferença. E nisto do ser, ou não ser, como já dizia um famoso inglês, é que está a questão. Quanto a mim, dado que os últimos tempos têm sido pródigos em encontros e experiências, tenho tido o privilégio de ter os dias marcados por muitas coisas que me confrontam comigo mesmo e me têm ajudado a ter mais atenção a esses momentos subtis, mas marcantes. Um deles passou-se na cidade do Xai-Xai. Estava eu para tomar o meu expresso, o que faço sempre que lá vou (é um hábito luxuoso, sei, mas caramba…uma bica bem tirada tão longe de Lisboa é qualquer coisa!) e, visto que o meu local habitual tinha falta da matéria-prima, visitei pela primeira vez uma padaria nas proximidades, coisa fina, com vários tipos de pão, muitos bolos e uma máquina Delta que me fez sorrir. Apesar da pouca simpatia da empregada fui para a esplanada todo contente beber o meu café e apreciar o ambiente. Aí é que a coisa começou a ficar mais chata…na mesa ao lado estavam os donos do café, de uma certa elite endinheirada e arrogante, que montavam um enorme carro telecomandado, bruto e muito feio, que teria custado, seguramente, uma fortuna. Do lado de fora da esplanada, inesteticamente gradeada, estavam uns miúdos que olhavam embasbacados para o que se passava na mesa ao lado, um rapaz que carregava as compras do patrão num carrinho de mão e o porteiro/segurança. Eu olhava, olhava, e cada vez me sentia mais fora de lugar, ao lado de tão arrogante família, enquanto a vida passava lá fora, na realidade daquelas crianças e do coitado do rapaz, que aturava um patrão com ares de mafioso. Subitamente caí em mim e vi-me numa posição que não queria, ainda por cima a dar dinheiro àqueles tontos que se entretinham com um ar quase entediado a montar um parvo carro electrónico…era demais! Decidi entregar o bolo que tinha comprado para acompanhar o bendito café aos miúdos mas, como foram embora antes que me levantasse, entreguei-o ao porteiro, que o guardou no bolso com mil cuidados para não ser visto. Foi uma experiência que me fez pensar muito, precisamente porque poderia não me ter questionado nada e por, na verdade, não sentir aquela paz de alma quando temos ataques caritativos e ficamos muito felizes connosco. Não me senti uma pessoa melhor, mas diferente. Escusado será dizer que nunca mais lá volto, mesmo que a consequência seja a não-existência de um belo e quente café…
Talvez sejam estas pequenas decisões, tomadas de acordo com situações concretas e quotidianas, as mais importantes. Não sei.
Sei apenas que me ficou na memória esse sentimento de poder optar por dois lados do mundo, ou poder escolher aproximar-me de duas realidades muito diferentes.
Não é comum sentirmos as escolhas tão concretas. E quando temos o privilégio de viver encontros que nos marcam e questionam, talvez a mudança comece por não esquecer o que vimos e pudemos conhecer, arriscar uma aproximação e a deixarmo-nos afeiçoar às pessoas. Depois lentamente vamos mudando, sem revoluções vistosas nem insultos contra os males do mundo, mas em pequenas atitudes. Pequenas, mas vividas com verdade e continuidade. Seremos nós a mudar, e isso muda já o mundo, pelo menos o que está em redor.
É nisto que dá tantos meses entre crianças, escola, velhotes, vizinhos, comunidades, conversas, encontros… e ler no jornal a fortuna obscena que é o salário presidencial, depois de visitar alguém que passa dias sem nada para comer.
O difícil está em não apagarmos o que vivemos.
Para isso, meus amigos, conto convosco!

Estamos juntos, mano Pedro! Bom regresso!
Caro Pedro! O mundo já era pequeno, com a internet tornou-se verdadeiramente na “aldeia global”.
Em boa hora a minha filha (Sílvia) me apesentou o teu blog.
Sei que já estarás em Portugal. Desejo-te um óptimo regresso e/ou estadia por cá. Não sei se ficas por muito ou pouco tempo, mas pelo que imagino, não irás ficar muito tempo por esta pasmaceira, por esta terra em que cada vez mais as pessoas vivem para a imagem, para a fachada e em que sublimam o dinheiro como bem supremo. Uma sociedade de idiotas!
Acabei de ler 2 belos textos teus. Gostei muito, mas muito mesmo. Estas são verdadeiras crónicas da vida real.
Depois de ler tão boas crónicas, pergunto: para quando uma publicação em papel, com um conteúdo entre a crónica e a ficção?
Creio que um dia falaremos. Entretanto, desejo-te muita alegria e continua a viver a vida como gostas. Sê feliz!
Se puderes, dá-me notícias. Um afectuoso abraço.
Luís Fernandes (luiscfernandes48@sapo.pt)