“Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti,
Mas agora vêem-te os meus próprios olhos.”
Job, 42, 5.
É com esta bonita citação do Livro de Job que retomo a partilha destes dias moçambicanos.
Há muito que não vos escrevo algo mais pessoal, não por ter abandonado o meu mais-ou
-menos-diário, mas porque tem sido um tempo mais repousado do que o habitual. Quase me atrevo a chamar que as últimas duas semanas têm sido umas curtas férias! Férias da obra da escola, que aguarda a colocação dos vidros nas janelas e das portas para poder ser pintada; férias das idas diárias a Macasselane, com os alimentos para os trabalhadores e para ver o andamento dos trabalhos; férias dos horários que há muito se tinham tornado sistemáticos.
E é assim que, à medida que o Inverno se vai embora definitivamente e os dias aquecem, tenho aproveitado o tempo para organizar a documentação referente à construção da escola, colocar todas as fotografias e vídeos no computador (organizar o computador é tão trabalhoso como arrumar o quarto, que por falar nisso, já pedia alguma ajudinha…), e dedicar mais tempo a outras tarefas.
A citação inicial, momento final do diálogo de Job com Deus, vem a propósito de alguns encontros que tenho o privilégio de viver.
Manjacaze tem uma dimensão muito maior do que podemos pensar à primeira vista, pois a maior parte da população habita em bairros que se organizam a partir das ruas centrais da vila, em casas de caniço e palhotas, por entre árvores frondosas e estradas de terra. Aqui a electricidade é menos presente e não existe água da rede municipal (privilégio este apenas para quem vive na zona chamada “cimento”, a área que corresponde à antiga vila colonial).
Apesar de próximos do centro, estes bairros mantêm uma vida de características rurais: pequenas machambas junto das casas, idas diárias ao fontanário, habitações mais humildes e precárias. Se não fosse a densidade populacional relativamente elevada, devido à proximidade das casas, poderíamos pensar que estaríamos numa aldeia da região.
Aqui vivem histórias solitárias, memórias de vidas longas e dolorosas, com muito por contar.
Um papá vive sozinho numa casa de caniço, pequena mas bonita, com uma janela pintada de azul e flores bem regadas a fazer de cerca; os filhos e netos estão no Maputo. Bem perto vive uma vovó muito velhinha, que anda sempre de costas dobradas e tem uma palhota a precisar de restauro. Pouco consegue trabalhar na machamba, por isso alimenta-se com o que a natureza e alguém generoso oferecem. Para ter água vai à fonte várias vezes por dia com uma velha garrafa de óleo de automóvel. Por vezes alguém lhe enche um bidão de 20 litros, que, por o ter feito toda a vida, agora já não consegue carregar à cabeça.
Numa zona mais afastada do bairro vive outra vovó muito simpática que apenas nos consegue ver quando estamos muito perto. Sempre se queixa do mesmo: dores nas pernas, joelhos, braços, costas e falta de vista. Tem a sorte de ter vizinhos jovens que a ajudam de vez em quando com os trabalhos mais pesados. Não muito longe vive outra velhota que, felizmente, não vive sozinha mas com alguns familiares. Carrega consequências da guerra civil, no corpo e na mente, por ter sido violentada, espancada e abandonada. Com alguma frequência perde a cabeça e tem dificuldade em se movimentar.
Pouco a pouco dão-se a conhecer histórias de tempos passados, de quem fugiu à violência da guerra e da fome, de quem viu assassinarem pais, filhos e irmãos e escapou por milagre. E que hoje aqui estão, sem família que apareça de visita ou os leve para outro lugar.
Mais caricato é um trio de avós que vivem muito perto umas das outras, junto do mercado de Xicanhanine, que, enquanto o novo mercado está em construção, significa um aglomerado ordenado de barracas de caniço, defronte da central de transportes da vila, vulgo terminal dos chapas. Muito simpáticas e de bom humor, têm aquela cansativa mania da idade avançada de sempre implicarem entre si, no entanto sem nunca perder oportunidade de dizer uma graça ou soltar uma gargalhada. Uma delas não consegue andar, outra tem o lugar de mais velha do grupo mas é a que se movimenta mais, e a terceira é a mais calma e pacificadora. Aqui a conversa muda um pouco: para além das dores habituais é certo que existem três coisas a pedir – açúcar, petróleo para o candeeiro e chá. Como é certo também, especialmente da parte da mais velhota, um piropo ao mulungo de visita.
Esta é uma realidade escondida, porque a tradição de núcleo familiar alargado torna menos visível o facto de tantos idosos viverem sós, e, em muitos casos, verdadeiramente abandonados. Realidade escondida porque estas pessoas há décadas que ultrapassaram a média de idade do país. E se é verdade que o que nos entra no olhar e nos dias são as crianças, é verdade também que se vai desvelando a história recente de Moçambique nos relatos de vida destes idosos.
Por isso me lembro de Job. Uma coisa é ouvir falar ou tomar conhecimento, outra é ver, tocar e escutar. E muito se pode ver nesse olhar, que afinal é também o Seu.